A humanização do território que hoje constitui o Parque Natural de Montesinho associa-se à materializarão de actos culturais do Homem que aí se instalou. Pelo conhecimento científico de que hoje dispomos, não nos é permitido assinalar a presença humana para além dos períodos neolítico/calcolítico. Os monumentos megalíticos da Serra da Corôa e de Donai provam-nos a existência de populações que enterravam os seus mortos sob mamoas, mas pouco mais se poderá aduzir para a ilustração do tipo de ocupação que o Homem fez nesta área ao longo da Pré-História recente.
O povoamento proto-histórico é mais imponente, contando-se actualmente cerca de três dezenas de povoados fortificados (castros) implantados em castelos graníticos, nos cumes altos dos contrafortes montanhosos, em cabeços destacados no interior de planaltos ou nos relevos em esporão distribuídos ao longo dos vales fluviais. O território destes povoados abrange uma diversidade de recursos naturais que permite aos seus habitantes, pertencentes ao povo dos Zoelas, reunir as melhores condições para a prática de uma economia agro-silvo-pastoril.
A conquista do território pelos romanos introduz alterações estruturais na história do território, quer seja no domínio político-administrativo, socio-económico, cultural ou ideológico. O processo de romanização implicou mudanças estruturais na organização indígena do espaço. Alguns dos antigos castros foram abandonados e surgiu uma rede diversificada de habitats integrados na Civitas Zoelarum. A nova rede de povoamento está em relação com a intensificação das actividades agrícola e mineira e com a criação da via XVII do Itinerário de Antonino, cujo traçado norte se desenha junto ao limite meridional do Parque, passando pela sede da Civitas dos Zoelas, identificada com Castro de Avelãs.
A ocupação germânica parece ter desarticulado a organização administrativa romana deixando esta região entregue ao seu isolamento e favorecendo a consolidação dos laços comunitários que permitiram a sobrevivência de algumas comunidades a que se refere a documentação medieval mais antiga, já que a ocupação muçulmana também parece não ter tido grande expressão neste território, se assim puder ser interpretada a ausência de vestígios dessa época, porque também as lacunas de investigação podem distorcer esta visão.
É com o advento da Nacionalidade que aumenta a massa informativa acerca da História deste território, pois a documentação escrita torna-se mais frequente. As políticas régias da I dinastia portuguesa reflectiram-se, sobretudo, na consolidação das fronteiras e na reorganização do povoamento e dos territórios. Fomentou-se a organização concelhia - D. Sancho I concede foral a Bragança (1187), D. Afonso III a Vinhais (1253) e D. Dinis a Paçó (1310) e a Lomba (1311 e 1324) - criaram-se as Vilas Novas de Vinhais e S. João de Lomba e construíram-se castelos em Bragança e Vinhais. As Inquirições de 1258 documentam a presença senhorial na região dos mosteiro cisterciense leonino de S. Martín de Castañeda e do mosteiro beneditino de Castro de Avelãs que, apesar das usurpações aos domínios realengos, jogaram importante papel nesta reorganização do povoamento.
A passagem à Época Moderna não se identifica com grandes obras ou edifícios, mas nos séculos XVII e XVIII assiste-se a grande afã construtivo um pouco à semelhança do que se passa por toda a Província de Trás-os-Montes. Erguem-se solares e capelas e constroem-se ou renovam-se igrejas cujo interior se reveste de talha dourada.
Durante a Baixa Idade Média e a Época Moderna o território do Parque Natural de Montesinho viu-se retalhado pelos antigos concelhos de Lomba, Vinhais, Paçó e Bragança. A reduzida geografia dos concelhos de Lomba e Paçó, associada à sua incapacidade de auto-sustento, ditaram a sua extinção aquando das reformas liberais da primeira metade do século XIX.
Os recursos naturais disponíveis parecem ter, ao longo da História, ditado a base económica das comunidades. A actividade agro-silvícola e a criação de gado foram, e continuam a ser, basilares na economia das gentes, de par com a exploração de recursos mineiros, nomeadamente do ouro, do ferro, do estanho e do volfrâmio.
Actualmente, o povoamento caracteriza-se pela sua concentração.
As aldeias surgem maioritariamente implantadas em vales abertos, ou a meia encosta, podendo, no entanto, ser encontradas no interior dos planaltos ou, extraordinariamente, nos topos de cabeços.
A configuração que o aglomerado adquire resulta, regra geral, das condições geomorfológicas do território, aproveitando-as a população para edificar com uma maior economia de meios. Em termos morfológicos os aglomerados resultam da disposição dos edifícios em núcleos, formando conjuntos compactos de construção que se vão organizando continuamente, deixando entre si os arruamentos que, simultaneamente, os delimitam e estruturam.
O património cultural das gentes do Parque Natural de Montesinho ultrapassa a sua própria história e a sua presença marcante na paisagem natural, mantendo-se viva num conjunto de práticas que se revestem de alguma imaterialidade.
As festas anuais animam, geralmente em época estival, um fim-de-semana ou dia santo em cada uma das aldeias, por altura da celebração do dia do seu padroeiro. O sentimento religioso destas comunidades mistura-se, por vezes, com atitudes pagãs, como as que dão vida às cíclicas Festas dos Rapazes, que parecem ter origem remota em ritos iniciáticos e que a Igreja sacralizou ao associá-los à celebração do Mártir S.to Estevão. As sonoridades das gaitas de foles e dos bombos ecoam pelas ruas nos dias de festa associando-se ao misticismo dos ritos católicos da celebração litúrgica ou das procissões que atravessam as ruas da aldeia. Noutras ocasiões, enchem os momentos de pausa ligados ao cicio dos trabalhos do campo.
A transformação de matérias-primas locais permite às populações disporem de um conjunto variado de produções artesanais que marcam a sua cultura material móvel.
A maioria dos objectos produzidos artesanalmente continuam a satisfazer algumas das necessidades quotidianas, daí que ainda permaneça a arte de os produzir, ainda que, por vezes, seja apenas de forma vestigial.
A tecelagem do linho e da lã representaram até há algumas décadas quase que a única forma de produção de agasalhos ou de produção de peças de cozinha, de cama ou para alindar soalhos.
Também a cestaria, de vime, de serôdio e silva ou de lâminas de castanho, mantém a sua actualidade, quer em usos domésticos, quer nos trabalhos do campo.
Os trabalhos em metal privilegiam o uso de zinco e de latão com que se produzem alambiques, caldeiros e panelas, entre outros objectos... vendidos na oficina do artesão ou nas feiras de Vinhais e Bragança.
Os trabalhos da madeira foram já bem mais importantes quando o carro de bois era o meio de transporte indispensável e as casas tradicionais não dispensavam as varandas, portas, portões e janelas em madeira onde se lavravam os padrões decorativos tradicionais; hoje, os trabalhos em madeira têm sobretudo uma função decorativa como patenteiam as máscaras ou as esculturas que utilizam a raiz de urze como matéria-prima.
A dinâmica da sociedade conduz necessariamente a estados de evolução, no entanto, as populações do Parque Natural de Montesinho acusam um certo conservadorismo traduzível no zelo que demonstram pelo seu património construído comunitário, no respeito pelos sítios arqueológicos ou na manutenção de certas tradições e práticas económicas e sociais.