Pesquisar
Paisagem

"Uma paisagem de tipo alpino  encravada no  coração de  Portugal", assim se refere Suzanne Daveau à área do Planalto Central da Estrela.
Zonas aplanadas, superfícies polidas, vales glaciáricos, moreias, circos, lagoas, relvados húmidos, são as marcas evidentes da glaciação würmiana. É um fenómeno de realce, se considerarmos que se trata duma montanha do sul da Europa, atingindo apenas os 1993 metros de altitude.
Com um ambiente hostil à actividade humana, a sua fisionomia é, no essencial, marcada pela natureza, sendo apenas utilizados por pastores os relvados naturais - cervunais - como alimento aos gados transumantes, nos meses de verão.
Toda esta originalidade se perde na restante área do maciço da Estrela, marcada profundamente pela presença humana.
Numa imensa superfície de terras, na parte superior do planalto, a 1200 metros de altitude, nas freguesias de Videmonte e Folgosinho, é a actividade da cultura do centeio, da floresta e da criação de rebanhos com frabrico de queijo artesanal, que ocupa os habitantes que povoam esta área da Estrela.
Defendem-se dos rigores do clima em pequenas e curiosas habitações - os casais - construídas em locais abrigados junto às linhas de água. É utilizada a pedra nas paredes e o colmo nas coberturas.
Nas encostas do Zêzere, viradas a nascente, é a exploração florestal que domina, fazendo-se agricultura apenas nos vales de aluvião e nas encostas soalheiras. A abundância de estevas, algumas azinheiras e sobreiros, indicam-nos a influência do clima meditterânico que aqui se faz sentir.
Nos vales de Alvoco e Loriga, na encosta sudoeste da Estrela, depara-se-nos uma paisagem de vales encaixados numa zona de contacto entre o granito e o xisto. O homem serrano, aproveitando os benefícios de um clima, suave, construiu, com grande engenho um admirável mundo de terraços, vencendo desníveis e tornando possível a agricultura.
Mas é a noroeste, numa encosta suave com socalcos de grande aptidão agrícola, que vive a maior parte da população.É a encosta da policultura, da criação de rebanhos e do fabrico do Queijo da Serra da Estrela. É a encosta das aldeias em granito. A calçada ou a ponte romana, os castelos, os pelourinhos, o solar, a casa rural ou mesmo as casas modernas são testemunhos da história da ocupação e adaptação dos povos à vida difícil da montanha.
Da floresta primitiva, que revestia as encostas da montanha, quase nada existe. Uma floresta actual à base de pinheiro bravo, substituiu uma floresta primitiva rica em variedade de espécies. Dos teixos, bétulas, pinheiros silvestres e dos imensos carvalhais de que nos falam os relatórios, apenas restam alguns vestígios em pequenas manchas raras e dispersas. São cenários que o homem faz evoluir no tempo.
É assim a Estrela, uma montanha replecta de história que importa conhecer.
In "À Descoberta da Estrela - Grandes Rotas Pedestres" 1998.