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Património construído

Interpretando de uma forma genérica, o modo de fixação e desenvolvimenro dos núcleos populacionais no território, verifica-se em primeiro lugar que a habitação se distribui, na sua quase totalidade, abaixo dos 900 metros de altitude, apenas com excepção de quatro aldeias: Sabugueiro, Folgosinho, Videmonte, Trinta. Também se verifica que o modo de ocupação do mesmo território e a própria estrutura das povoações são distintos relativamente às zonas do granito e do xisto da Serra.

Com efeito, e no primeiro caso, as povoações têm em geral uma população superior a 1000 habitantes, e estão implantadas na meia encosta, em declives que não ultrapassam os 25%. Estruturalmente e com raras excepções, têm uma rua principal que as atravessa e se alarga no adro da igreja ou capela. Para além deste espaço público, e conforme a sua importância, aparecem outros espaços, ou de carácter administrativo/representativo - largo do pelourinho, da cadeia, da antiga câmara - ou de carácter social/económico - largo da feira, do jardim público, da fonte - dispondo-se a povoação ao longo da encosta, com ruas pouco inclinadas cortadas por pequenas travessas ou páteos, de modo a obter as melhores condições de exposição solar, arejamento e protecção climática. Nas zonas centrais, em geral mais densas, os edifícios tradicionais são sistematicamente "em banda" - por razões de economia energértica e construtiva - formando quarteirões irregulares, fugindo à regra os edifícios de representação: igrejas, capelas, casas senhoriais e alguns edifícios públicos.

Arquitectonicamente, a maioria das habitações é de dois em planta rectangular, com loja térrea e um andar assoalhado, em alvenaria de granito de elementos maiores ou menores, conforme a qualidade do material ou o poder económico do primitivo proprietário. É vulgar a existencia de um balcão, saliente em relação à fachada, que pode ou não ser alpendrado, sendo a cobertura em duas águas e em telha vã. Interiormente, as divisórias tradicionais são em taipa rebocada a cal ou em madeira à vista, sendo os pavimentos e tectos igualmente em madeira, e as cosinhas em telha vã, nas habitações mais primitivas. O aparecimento de cantarias nos vãos, cunhais ou cornijas de beirado, só se verifica nos edifícios de representação posteriores ao início do sec. XVII, e é acompanhado de paredes rebocadas e caiadas a branco. No caso das aldeias mais desenvolvidas, aparece uma tipologia mais "urbana", representada por edifícios de três pisos e escada interior, sendo maiores os pés-direitos  e tendo frequentemente uma varanda no último piso, construções que na sua maioria são posteriores a 1850; mantém-se no entanto a tecnologia e os materiais tradicionais, assim como a qualidade geral da construção.

No que diz respeito à zona do xisto, a ocupação humana é muito mais distribuída no território, sendo raras as aldeias com população superior a 500 habitantes, havendo casos, na mesma freguesia,  de várias aldeias de 100 a 150 habitantes. Como os vales são muito mais escavados, os declives chegam a atingir 70 a 80%, o que faz com que as povoações se cerquem de terrenos em socalcos. Estruturalmente, a malha urbana é muito mais apertada que na zona do granito, com as ruas impedindo outro trânsito que não seja o pedonal. Os espaços públicos praticamente desaparecem, sendo as ruas em rampa, e os diferentes níveis ligados por escadas.

As habitações possuem frequentemente vários pisos, sendo habitual terem acessos directos a vários deles. A adaptação dos conjuntos edificados ao terreno é assim muito facilitada, e ainda ajudada pelo tipo de material das alvenarias - pequenos pedaços de xisto - produzindo paredes curvas,  coberturas a vários níveis - frequentemente de uma só água - e grande liberdade e rigor na concepção dos volumes. Na quase totalidade dos casos, os vãos são resolvidos com torsas de madeira de castanho ou carvalho, sendo os interores igualmente em madeira. O tipo de compartimentação também é distinto do da zona do granito, com os espaços comunicando entre si - cozinha, sala, alcovas - o que produz a máxima economia. São habituais as varandas em madeira, não raro protegendo fachadas recuadas, em taipa. As coberturas são em grandes lascas de xisto, dispostas umas sobre as outras sem qualquer fixação; em grande parte dos casos têm vindo a ser substituídas por telha cerâmica.

No caso das zonas de transição geológica, os edifícios aparecem com uma alvenaria "mista", em que os vãos e cunhais são em granito e o enchimento em xisto, o que, dada a diferença de materiais, lhes confere um curioso efeito estético.

In "Levantamento do património arquitectónico e urbanístico do Parque Natural da Serra da Estrela - 1983"