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CONSERVAÇÃO DA NATUREZA  E BIODIVERSIDADE


A bacia hidrográfica do Guadiana enquadra-se na região do mediterrânico, cuja evolução favoreceu a presença de uma invulgar riqueza de espécies de peixes de água-doce. À semelhança de outros grupos da fauna, os níveis de endemismo são especialmente elevados nas grandes penínsulas (Ibérica, Italiana, Egeu e Turquia), provavelmente por estas regiões terem servido de refúgio durante os períodos glaciares (Blondel & Aronson 1999).


De facto a comunidade piscícola da bacia do Guadiana apresenta uma grande diversidade e elevado valor para a conservação da natureza, tendo sido considerada pelos especialistas como aquela que merecia, no conjunto das bacias nacionais, uma maior atenção em termos conservacionistas (SNPRCN 1991).

Esta bacia sobressai pela presença nas suas águas de grande quantidade de endemismos piscícolas ibéricos, dez no total, quase todos classificados com um dos estatutos de ameaça: saramugo Anaecypris hispanica, boga do Guadiana Chondrostoma willkommii, boga-de-boca-arqueada Chondrostoma lemmingii, cumba Barbus comizo, barbo-de-cabeça-pequena B. microcephalus, barbo do Sul B. sclateri, barbo de Steindachner Barbus steindachneri, escalo do Sul Squalius pyrenaicus, bordalo “Complexo de Squalius alburnoides” e verdemã-comum Cobitis paludica.

Destes, o saramugo, o barbo-de-cabeça-pequena e a boga do Guadiana são endémicos da bacia do Guadiana e por isso só ocorrem nesta bacia hidrográfica. De destacar ainda o caboz-de-água-doce Salaria fluviatilis, que em território nacional apenas ocorre nesta bacia (Collares-Pereira et al.2000a).

De entre estas espécies, o saramugo é a espécie em maior risco de extinção tendo sido classificado como Criticamente em Perigo (Cabral et al. 2005). Apresentando uma distribuição bastante localizada e severamente fragmentada ocorrendo nas sub-bacias hidrográficas do Xévora, Caia, Álamo, Degebe, Ardila, Carreiras, Chança, Vascão, Foupana e Odeleite (Collares-Pereira et al. 2000a).


O SARAMUGO

O saramugo é um pequeno peixe que raramente ultrapassa os 7 cm de comprimento e que ocorre em pequenos cursos de água de carácter intermitente, com reduzida profundidade, oxigenados, com alguma corrente, vegetação aquática e fundo pedregoso, características dos cursos de água mediterrânicos (Collares-Pereira et al. 2000a).

Em Portugal a população encontra-se em declínio acentuado, admite-se que a redução da espécie nos últimos dez anos tenha atingido 80% do número de indivíduos maduros (Cabral et al. 2005). Estudos de genética demonstraram haver isolamento demográfico entre os núcleos populacionais que ocorrem em Portugal (Collares-Pereira et al. 2000a). Facto que coloca ainda mais em risco a perpetuação desta espécie uma vez que promove a perda de variabilidade genética e consequentemente capacidade de adaptação a alterações de habitat.

Referências:

Blondel, J. & J. Aronson 1999. Biology and Wildlife Mediterranean Region. Oxford University Press Inc. New York. 328pp.


Cabral, M.J. (coord.), Almeida J., Almeida P.R., Dellinger T.R., Ferrand de Almeida N., Oliveira M.E., Palmeirim J.M., Queiroz A.I., Rogado L. & Santos-Reis (eds.) (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza. Lisboa. 660 pp.


Collares-Pereira MJ, Cowx IG, Rodrigues JA, Rogado L, Ribeiro F, Mendes A, Pichiochi P, Salgueiro P, Alves MJ & Coelho MM (2000a). Uma estratégia de conservação para o Saramugo (Anaecypris hispanica), um endemismo piscícola em extinção. Relatório Final, Programa LIFE-Natureza, contrato B4-3200/97/280. Centro de Biologia Ambiental / Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Instituto da Conservação da Natureza, Universidade de Hull, Lisboa, Volume I (121 pp.) e Volume II (13 anexos).


S.N.P.R.C.N. (ed.) (1991) Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Vol II. Peixes Dulciaquícolas e Migradores. Secretaria de Estado dos Recursos Naturais. Lisboa. 55 pp.


Factores de Ameaça

Medidas de Conservação

Plano de monitorização da Ictiofauna 

Intervenção Saramugo 2008

Intervenção Saramugo 2009-2010