Pesquisar
Águia-imperial

 

Programa de  acompanhamento da população em 2009

A espécie
A águia-imperial é uma espécie endémica do Oeste do Mediterrâneo, estando actualmente restrita à Península Ibérica, onde nidificam cerca de 250 casais. Devido à pequena dimensão desta população, e constituindo uma espécie de rapina rara no mundo, está actualmente classificada como Vulnerável pela Lista Vermelha da IUCN (IUCN 2008) e como Criticamente em Perigo pelo Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (Cabral et al. 2005).


Em Portugal, tem criado na proximidade do Parque Natural do Tejo Internacional, também classificado como Zona de Protecção Especial (ZPE), e nas ZPE de Moura, Mourão, Barrancos e de Castro Verde.

Evolução da população e sucesso reprodutor
Em 2009, nidificaram três casais de águia – imperial em Portugal, embora apenas um deles tenha terminado a reprodução com sucesso. Esse casal produziu três crias voadoras, situação que revela a experiência do casal e a disponibilidade alimentar das áreas de caça. Um dos dois casais sem sucesso abandonou o ninho, possivelmente ainda durante a incubação.


No gráfico abaixo encontra-se um resumo da evolução da população nacional de águia – imperial ibérica, desde o seu reaparecimento em 2003, existindo a possibilidade de ter criado em 2002.

Ver gráfico

Uma questão preocupante que se continua a detectar nos casais que nidificam em Portugal é o nível de substituição de um dos membros do casal. Até ao momento, estão confirmadas pelo menos três casos, respectivamente em 2004, 2008 e 2010, suspeitando-se ainda de um outro em 2008.

As causas possíveis para abandono do ninho pelo casal acima mencionado são a perturbação ou a morte de um dos indivíduos do casal, por abate, electrocussão em postes de energia eléctrica ou envenenamento, por exemplo. A hipótese de morte da ave é corroborada pelo facto de, este ano, o macho do casal ter sido substituído por um macho mais jovem. O insucesso do segundo casal em 2009 deveu-se ao abate do macho do casal com um tiro de caçadeira, tendo o cadáver sido encontrado em Fevereiro de 2009, perto do ninho que o casal entretanto já tinha activado. Encontra-se em curso o apuramento das responsabilidades por este crime ambiental.

Até ao momento estão confirmadas três mortes de aves em Portugal: o adulto abatido em 2009, e duas aves imaturas electrocutadas, respectivamente em 2003 e 2009. No entanto, a substituição de membros do casal acima referida indicia que poderão ter ocorrido outras mortes de aves não confirmadas.

Em termos de sobrevivência das crias, constata-se que a situação é positiva, sendo que a maioria das crias nascidas se desenvolve com sucesso até se tornar voadora.


Ver gráfico 


O esforço de monitorização implementado na presente época de reprodução de 2010 foi reforçado relativamente à equipa de 2009. 

Acções de conservação
Em termos de medidas de conservação da espécie, em 2009, destacam-se as acções associadas à instabilidade dos ninhos, à morte acidental em linhas eléctricas, à gestão cinegética e à manutenção dos contactos com os proprietários e gestores de caça para evitar perturbação e fomentar a disponibilidade de coelho, principal presa da águia - imperial.


- Instabilidade dos ninhos
Face à instabilidade do pinheiro de suporte do ninho usado por um dos casais no Sul, resultante da acção dos veados (desbaste das hastes) foi construída uma plataforma artificial numa das escassas árvores existentes na proximidade desse ninho, a qual imita o ninho natural da espécie. Este ninho artificial já foi activado pelo casal na presente época de reprodução, evidenciando para Portugal os bons resultados obtidos em Espanha com esta técnica. Além de peritos nacionais em rapinas, contou-se com a colaboração de um técnico espanhol do Grupo Ibérico de trabalho da águia – imperial.

 

- Morte acidental em linhas eléctricas
A electrocussão em linhas eléctricas constitui a principal causa de morte não natural conhecida na Península Ibérica. Desde 2003, foram encontradas duas águias - imperiais imaturas electrocutadas, ambas em Castro Verde. A primeira foi encontrada em 2003 durante os trabalhos desenvolvidos no âmbito dos protocolos de colaboração estabelecidos entre o ICNB, a EDP, a SPEA e a QUERCUS com o objectivo de estudar esta causa de mortalidade da avifauna e minimizar os seus efeitos. A segunda foi encontrada em Novembro de 2009 e era uma fêmea reintroduzida em Cádiz e marcada com transmissor rádio em 2008. No âmbito do acordo estabelecido entre aquelas entidades, a EDP irá proceder à correcção de cerca de 40 km de linhas perigosas dentro da área de distribuição da espécie, já em 2010, sendo que outras linhas perigosas deverão ser corrigidas em 2011.

- Manutenção dos contactos com os proprietários
A colaboração permanente com os proprietários e/ou gestores de caça das propriedades onde as aves se alimentam mantém-se um eixo de actuação do Grupo de Trabalho da águia – imperial nacional. Nesse sentido, na última quinzena de Fevereiro de 2009, o Parque Natural do Vale do Guadiana desenvolveu acções de fomento de coelho - bravo, designadamente construção de maroços no território de caça de um dos casais, num total de 21 unidades de fixação.


Ver foto 


Em termos de gestão cinegética, assegurou-se uma área de condicionamento parcial à caça nas zonas de caça existentes na área de um dos ninhos e mantêm-se os contactos com o gestor de outra zona para assegurar a manutenção das condições de tranquilidade que já têm vindo a ser promovidas pelo próprio em anos anteriores. 


Grupo de Trabalho Ibérico da águia - imperial
Na XIX Cimeira Luso Espanhola (Novembro 2003), os ministros responsáveis pela tutela do Ambiente e Conservação da Natureza de Portugal e Espanha acordaram que o lince-ibérico e a águia-imperial ibérica seriam as duas espécies alvo da colaboração em termos de conservação da natureza. Nesse âmbito, foi assinado (Outubro 2004) o “Memorando de entendimento entre o MAOT e o MADRP da República Portuguesa e o Ministério do Meio Ambiente do Reino de Espanha para a cooperação sobre a águia-imperial e o lince”, processo coordenado pelo ICNB e pela Dirección General para la Biodiversidad do Ministério del Medio Ambiente.


O Grupo de Trabalho Ibérico da águia – imperial é o instrumento que estabelece a colaboração com Espanha no âmbito deste memorando. Neste âmbito, desenvolveram-se diversas acções em 2009, dando continuidade aos trabalhos já iniciados anteriormente.

Reunião do grupo de trabalho
Em Março de 2009, realizou-se a reunião do Grupo de Trabalho da águia – imperial onde se identificaram as seguintes linhas de actuação: 

a. O Grupo ibérico apoia o trabalho realizado pela Administração Portuguesa para melhorar o estado de conservação da águia – imperial, mas manifesta a sua preocupação pelo elevado número de substituições que está a ocorrer nos casais em Portugal, o que é indicativo de uma elevada taxa de mortalidade. Nesse sentido, recomenda o seguimento dos elementos dos casais para identificar as causas e o local do seu desaparecimento.
b. O Grupo incentiva a Administração Portuguesa a elaborar um plano de acção nacional para a espécie.
c. A Administração Espanhola, através do MARM, oferece a possibilidade de criar uma equipa mista de controlo e seguimento das águias em Portugal e que os técnicos de Portugal se integrem nos trabalhos de seguimento de águias marcadas com emissores rádio através de voos de avioneta.
d. Recomenda-se continuar com os trabalhos de seguimento aéreo das águias marcadas com emissores rádio e reforçar a coordenação entre as administrações do GT distribuindo as frequências das mesmas.
e. Recomenda-se continuar com os trabalhos de revisão e actualização da estratégia de conservação da espécie, incorporando Portugal na mesma.
f. Nas acções de monitorização, recomenda-se estar atento quanto à ocorrência de indivíduos de A. nepalensis e de híbridos com A. adalbertii, por se ter detectado um casal misto destas duas espécies que se reproduziu com sucesso pelo menos durante uma época reprodutora.


Estudo sobre a dieta
O estudo das egagrópilas do casal que teve sucesso em 2009 mostra que a sua dieta é constituída essencialmente por coelho (71%), seguida por perdiz (15%), confirmando a importância das populações de coelho nos territórios de caça desta espécie.

Ver gráfico


Seguimento de aves com transmissores rádio e satélite
Em 2007, foram marcados três juvenis com emissores rádio. Um deles deixou de emitir devido a defeito técnico pouco tempo após a marcação, enquanto os outros dois têm continuado a emitir. Os dados recebidos mostram que as aves foram detectadas frequentemente em Espanha e na zona fronteiriça tendo ambos voltado a visitar o território original onde nasceram pelo menos numa das épocas de reprodução seguintes.

Durante 2009, assegurou-se a possibilidade de marcação de uma ave adulta com um transmissor de satélite (PTT) através de um protocolo estabelecido entre o ICNB e a Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza. Aguarda-se a evolução da época de reprodução de 2010 para decidir qual a ave a marcar com este transmissor. 


Colaboração
O ICNB pede a todos os ornitólogos que observem águias – imperiais no território nacional que nos façam chegar informação associada, sugerindo aliás como meio mais eficaz o envio de um sms no momento da observação para Carlos Carrapato (932735792), se se tratar de uma observação na região Sul de Portugal, e para Carlos Pacheco (965617147), se for uma observação na região Norte; preferencialmente deverá ser remetida a  seguinte informação: coordenadas GPS se disponível (senão for possível, referências o mais aproximadas possível do local); idade da ave (se possível); data e hora da observação; e, conforme adequado, direcção de movimento, indicação do poiso usado ou outra informação relevante. Esta informação será muito importante para tornar mais fina a malha de recenseamento de indivíduos desta espécie e para possibilitar deslocações imediatas ao local pelos técnicos envolvidos neste programa. A identidade dos informantes será sempre associada a estas observações, designadamente se as mesmas forem divulgadas ou publicadas.”


Para mais informação sobre esta espécie pode contactar: Manuela Nunes /UEH/DCGB/ICNB, nunesm@icnb.pt