A Cegonha-preta
A cegonha-preta é uma ave migradora cuja área de distribuição se estende aos continentes europeu, africano e asiático. Praticamente toda a população que nidifica na Europa migra para a África subsariana, embora alguns indivíduos permaneçam durante o Inverno na Península Ibérica. O núcleo populacional nidificante nesta península está isolado geograficamente da restante população europeia, a qual concentra a maior percentagem de casais deste continente. Conhecida pelos seus hábitos esquivos, em Portugal a cegonha-preta procura locais tranquilos, distribuindo-se sobretudos pelo interior do território continental, em zonas inóspitas das bacias dos rios Douro, Tejo e Guadiana.
A nidificação é feita em árvore, mais comum a sul do rio Tejo, ou em rocha tanto em escarpas de linhas de água, como em serras, como acontece nas cristas rochosas do Centro. É na bacia do rio Tejo que a espécie é mais abundante, nidificando maioritariamente em rochas de vales encaixados com matagal mediterrânico. Alimenta-se em zonas húmidas como linhas de água, charcas e albufeiras.
Muitas aves imaturas e adultos não reprodutores dispersam no início da Primavera e até mesmo durante a época reprodutora e período pós-nupcial para áreas menos comuns de distribuição e por isso podem ser observadas em locais onde a espécie não nidifica.
Em Portugal existem cerca de 100 casais, um número bastante reduzido de indivíduos. A espécie tem o estatuto de Vulnerável e não Criticamente em Perigo [Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (Almeida et al (2005)] por se admitir a possibilidade de imigração de regiões vizinhas.



.Seguimento de Aves via satélite
O ICNB tem vindo a desenvolver vários estudos de seguimento de aves via satélite entre os quais se encontra um estudo sobre dispersão e migração de cegonha-preta. Este estudo foi desenvolvido no âmbito de um projecto financiado pelo Programa INTERREG III A - FAUNATRANS do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, intitulado “Conservação da fauna ameaçada das regiões Alentejo, Centro e Extremadura”, o qual pretendia caracterizar e avaliar o estado actual dos ecossistemas, da flora e da fauna nestas regiões.
O estudo de dispersão e migração de cegonha-preta teve como principal objectivo contribuir para o conhecimento de áreas e épocas importantes para a espécie durante a fase pós-nupcial, fazendo uso de técnicas recentes de seguimento de aves.
Para além da fase de dispersão, foi também possível fazer o seguimento durante a época de migração e invernada de alguns indivíduos. Foram marcados 5 juvenis com transmissores em 2003, 2004 e 2006. O seu seguimento permitiu conhecer novas áreas de concentração pós-nupcial, determinar padrões de actividade e aspectos da fenologia, definir rotas de migração e identificar áreas de invernada. Este estudo contribuiu assim para o conhecimento sobre assuntos pouco conhecidos da população que nidifica na Península Ibérica.
Os resultados deste estudo podem ser consultados no site mencionado em Links, nesta página.

.Monitorização
A população nacional nidificante de cegonha-preta tem vindo a ser monitorizada regularmente pelo ICNB desde 1995. Nos trabalhos de monitorização faz-se um acompanhamento das áreas de nidificação conhecidas durante o período reprodutor, procedendo-se ao levantamento de ninhos ocupados, da dimensão da postura e da ninhada e do número de juvenis voadores. Estes dados permitem obter parâmetros importantes para avaliar o estado da população ao longo do tempo, como a taxa de voo, a produtividade e o êxito reprodutor. Para além disso, é feita a anilhagem de juvenis e um controle de indivíduos anilhados através de leitura de anilhas de adultos no ninho e por vezes em área de concentração pós-nupcial. Estes trabalhos permitem também ir fazendo o acompanhamento do estado das áreas de nidificação, bem como de potenciais factores de ameaça para a população nidificante.
O ICNB pretende fazer um estudo temporal com o resultado da monitorização ao longo dos anos.
.Censo
O ICNB já realizou dois censos nacionais da população nidificante de cegonha-preta: 1995-97 e 2002-04. Os trabalhos de censo desta espécie envolvem a prospecção de áreas conhecidas de nidificação, bem como de áreas potenciais tendo como foco o habitat mais favorável. Dado o carácter esquivo desta espécie e a sua preferência por áreas pouco perturbadas e muitas vezes pouco acessíveis, os trabalhos de prospecção têm contado com a participação de um número razoável de observadores e colaboradores.
No primeiro censo a população nacional nidificante foi contabilizada em 102 a 112 casais, e no último, em 97 a 115 casais, o que reflecte uma aparente estabilidade da população desde 1995. Também a área de distribuição actual da espécie, com base no censo de 2002-04, é semelhante à obtida em 1995-1997. No entanto, de acordo com Rosa et al. (2001), é possível que a distribuição desta espécie possa ter sido mais restrita num passado recente.
.Outros estudos
Áreas de alimentação, de nidificação e estudos de genética
O conhecimento e caracterização tanto de áreas de nidificação de cegonha-preta como das áreas de alimentação é fundamental para a gestão de áreas tendo em vista a conservação desta espécie. Assim em 2003, o ICNB desenvolveu dois estudos para adquirir mais informação sobre estes assuntos.
Para as áreas de nidificação foi feita uma caracterização dos habitats e das actividades humanas num raio de 1 km em torno do ninho. Ao todo foi feito o levantamento em SIG dos habitats em redor de 95 ninhos que tinham sido ocupados em pelo menos um dos três anos anteriores (2000, 2001, 2002).
Os resultados mostraram que os habitats predominantes num raio de 1 km dos ninhos são diferentes entre regiões. Na bacia do rio Guadiana, os montados de sobro e azinho são os que ocupam maior percentagem, enquanto que na bacia do Tejo são as plantações de eucalipto ou pinheiro e na bacia do Douro, são os matagais. As actividades humanas dominantes nessas áreas são a agricultura e a actividade cinegética e em média há 17 193 m de estradas no raio de 1 km em torno dos ninhos. Os aglomerados populacionais humanos mais próximos encontram-se a uma distância média de cerca de 2 700 m dos ninhos.
No estudo sobre as áreas de alimentação que decorreu na bacia do rio Tejo, na zona do troço internacional deste rio, foram feitas 642 horas de observação entre Março e Setembro de 2003, resultando em 112 observações de indivíduos de cegonha-preta em actividade alimentar. As aves foram seguidas a partir de pontos estratégicos ou procuradas em habitat de alimentação considerado potencial de modo a recolher informação tanto sobre habitat de alimentação, como comportamento dos indivíduos.
Este estudo mostrou que existe um pico de actividade alimentar entre as 9:00 e as 12:00 e que estes indivíduos têm preferência por linhas de água, açudes ou albufeiras com pouca profundidade, sobretudo nas margens. Existe uma preferência por substrato não-rochoso (sendo a areia o mais comum), por águas límpidas e com pouca corrente, no caso de linhas de água. Foram registados indivíduos até 20 km de distância dos seus ninhos, embora com mais frequência se alimentem num raio de 7 km em redor destes.
As actividades humanas que mais perturbaram os indivíduos em actividade alimentar foram actividades de lazer, nomeadamente a pesca e a navegação sobretudo com veículos motorizados, bem como o ruído relacionado com maquinaria pesada para agricultura ou extracção de inertes.
Entre 2003 e 2005 foram recolhidas amostras que permitiram fazer estudos de genética. Para mais informação sobre estes estudos consulte “estudos de genética”. Estes trabalhos foram apresentados na 4ª conferência internacional sobre cegonha-preta que decorreu na Hungria, em 15 -18 Abril de 2004.